Coluna da Drika: Um corpo de Carnaval

A colunista Drika Lucena fala sobre suas vivências como pessoa gorda no Carnaval

Será que o Carnaval é mesmo uma festa democrática quando o assunto é corpo?

Tem padrão também para brincar e se jogar na folia?

Não podemos negar que o Carnaval é uma das mais incríveis manifestações culturais do país e com notório reconhecimento mundial. Os gringos enlouquecem com razão porque, além de ser contagiante pela música e dança, ainda é uma verdadeira explosão de alegria que arrasta multidões por todo país. O turista estrangeiro se impressiona pela grandiosidade da festa, e não esconde um certo interesse nas brasileiras e seus trajes.

Não é de hoje que essa exposição é explorada nas transmissões de TV, onde os corpos à mostra – em sua maioria de mulheres – são parte da atração.

Corpos quase sempre sarados e malhados, alguns com os famosos procedimentos invasivos, ou não. Devem apenas seguir uma regra básica: serem magros. E é essa magreza que os leva às posições de maior destaque, onde quer que estejam.

Concordo que é lindo ver uma pessoa sambando e dominando os passos e trejeitos daquele samba no pé raiz e que hipnotiza realmente. O samba mexe com o coração, com a alma, e o corpo responde a esse estímulo ritmado e eletrizante que é mesmo encantador.

O que não me parece fazer o menor sentido é por que apenas os corpos magros e padrão são evidenciados como aptos e capazes ao samba e ao Carnaval.

 

Por que privilegiar alguém que às vezes nem sabe sambar, apenas pela fama e/ou por determinada estética?

 

Por que privilegiar alguém que às vezes nem sabe sambar, apenas pela fama e/ou por determinada estética? Por que esse corpo padrão é o bonito, é o saudável, é o desejável, é o que tem sempre o tal passe livre?

Eu sou uma mulher do Carnaval. Sofro de paixão incurável, irrestrita e incondicional, e lá se vão mais de trinta anos dedicados ao estudo acadêmico sobre as questões artísticas, estéticas e culturais da festa e ao trabalho direto em diversos cargos e funções, na frente e atrás dos holofotes.

Quando criança, minhas fantasias eram planejadas meses antes e eu me lembro muito da preocupação da minha mãe em escolher aquelas mais adequadas ao meu corpo gordo. Eu amava os preparativos e amava mais ainda porque podia usar maquiagem.

Uma vez, eu, minha irmã e minha prima fomos à matinê fantasiadas de melindrosas. As três iguaizinhas, só mudava a cor. Estávamos dançando no salão e fomos chamadas pra dançar no palco, e quando eu ia subindo as escadas um moço disse: “só elas, você não”. Tenho até hoje a foto sentada chorando. Eu tinha só 5 anos.

Não sei vocês, mas na adolescência eu me afastei de tudo que pudesse deixar meu corpo à mostra. Fugi do verão, da praia, piscina, de alguns esportes, e a justificativa era o “porque não gosto”, e ponto; do Carnaval eu jamais consegui me afastar. Eu nunca tive um romance, nunca fui beijada, nunca fui paquerada em um baile de Carnaval; mas fui tomada por uma paixão ainda maior e genuína que foi pela grandeza cultural e artística desse patrimônio.

Fui para os bastidores e até pensei que não seria mais alvo. Então minha foto aparecia na TV durante a apuração e choviam postagens falando sempre da minha aparência e nunca da minha competência ou falta dela.

Já estive julgando concursos de rainhas e princesas onde moças com corpos maiores eram vaiadas. Mulheres gordas em alguma escola de samba, por exemplo, sempre tem que levar o título de Plus Size porque se encaixam em outro nicho, se é que me entendem.

Um dia, eu já lá com meus 35 anos, estava customizando minhas camisetas para trabalhar como julgadora e a filha criança de uma prima estava em casa e me perguntou porque que eu estava colando lantejoulas naquelas blusas. Eu respondi que era porque eu trabalhava no Carnaval, e ela imediatamente disse: “Sério, tia? Você é a madrinha da bateria?”.

Eu sorri e pensei: sim, eu sou a madrinha, a rainha, eu sou a princesa, a odalisca, a havaiana, eu sou a mulher maravilha, sou quem eu quiser ser.

Eu vou ficar sempre com a pureza da resposta das crianças.

O Carnaval é pra ser e estar, é essencialmente livre, igualzinho a mim e ao meu corpo. Do mesmo corpo que vem meu sorriso, do mesmo sorriso que vem minha alegria, da mesma alegria que vem meu Carnaval.

Eu também sou festa e só vou parar na quarta-feira!

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(*) Drika Lucena é santista e professora universitária nas áreas de História da Arte, Estética, Produção de Arte, Criatividade, Tendências em Moda, Escrita Criativa e Estudos da Sociedade Contemporânea. Publicitária, Artística Plástica, especialista em Criação Visual e Multimídia, atuou como Redatora Publicitária e diretora de arte e desde sempre respira vive a paixão pela docência. Estudiosa da Cultura Brasileira, Cultura Popular, Criação e Inovação, ministra palestras, workshop, oficinas e mentorias. Drika fala de autoestima, autocuidado, sexualidade, dores e amores, vida e transformações da mulher real. Seu instagram é o @_drika_lucena

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