Pjay, o real gordão: entrevistamos o artista para falar de sua música de resistência contra a gordofobia

O multiartista Pjay, 25 se define um “real homem gordo maior, rapper e compositor, integrante da cultura Hip Hop por paixão, sonho e profissão”. Em parceria com Jupi77er, artista não-binárie, acaba de lançar a música “Real Gordão” trazendo um som de afirmação e exaltação extremamente necessários ao corpo gordo.

A música, sua primeira composição que trata de gordofobia, surgiu a partir de ataques que o artista sofreu. “Estava exausto como pessoa gorda. Exausto de ser desrespeitado. Parecia que em segundos  tinha voltado ao meu Ensino Médio, onde o bullying acabava comigo todos os dias. Queria simplesmente sumir. Acumulei ódio,  indignação e aquilo foi a gota d’água para mim, foi aí que surgiu ‘Real Gordão’”, explica.

Para ele, “Poder comunicar para pessoas como eu, que passam pelas mesmas coisas, que acumulam ódio e indignação como eu, que entendem essa dor, que já choraram pela mesma coisa, faz com que eu não me sinta tão sozinho no mundo, e espero que essas pessoas também possam se sentir menos sozinhas ouvindo ‘Real Gordão’.

Na entrevista ao Pop Plus, Pjay falou sobre música, gordofobia e projetos futuros. Leia:

Pop Plus: Como começou seu envolvimento com a música?

Pjay: Estive em contato com a música desde a minha infância, por conta de ter nascido em família evangélica, somos obrigados a frequentar a igreja desde a primeira infância. Meu pai é músico trombonista e foi maestro por um bom tempo, então eu tive influência e contato direto com a música por conta disso.

Quando criança, achava incrível ver as pessoas que sabiam cantar em ação, queria conseguir o mesmo. Acredito que não nasci com um dom, mas lutei bastante para conseguir cantar bem, seja de forma autodidata, ou estudando música e canto de fato. Tentei vários instrumentos, mas cantar foi o que me conquistou realmente.

Aos 17 anos conheci a cultura Hip Hop através de um amigo de escola extremamente engajado no movimento. Ele praticamente me evangelizou e trouxe a palavra do movimento, o que mudou e tem mudado minha vida desde então.

Pop Plus: Como o Hip Hop mudou sua vida e quais suas referências musicais?

Pjay: Foi no Hip Hop que encontrei conforto e propósito, me senti acolhido e ao mesmo tempo tive meus olhos abertos para a necessidade de consciência de classe. Descobri que existem mundos além do meu que precisam de atenção e, acima de tudo, respeito.

Fiquei imediatamente feliz por ser bom em algo, e esse algo se tratava de criar e me expressar através do Rap. Hoje em dia ele é meu vício, minha necessidade, minha validação como artista e acima de tudo, minha via de desabafo para o mundo.

Na época em que comecei, ouvi muito Criolo, Racionais, Rashid, Marechal, Sant, Facção Central… Fiz a alfabetização inicial das lendas vivas que temos e fui percorrendo a jornada de conhecer nossos artistas nacionais.

Musicalmente e sonoramente falando, sempre fui bem eclético e fiz o que tinha vontade, sempre usando o rap como base para as composições. Tive a oportunidade de experimentar coisas novas, principalmente depois que saí da igreja, ambiente do qual não me sentia mais representado há muito tempo.

Passei por muitas influências, mas recentemente encontrei bastante ligação com o blues e R&B, o que acabei levando para o meu EP mais recente intitulado AMOR & TROVÃO e no single “LOFI – LOVE”.

Passei pelo trap recentemente em “Real Gordão”, e pretendo continuar explorando essas possibilidades no meu próximo projeto.

“Poder comunicar para pessoas como eu, que passam pelas mesmas coisas, que acumulam ódio e indignação como eu, que entendem essa dor, que já choraram pela mesma coisa, faz com que não me sinta tão sozinho no mundo, e espero que essas pessoas também possam se sentir menos sozinhas ouvindo ‘Real Gordão’.” – Pjay



Pop Plus: ️Sua música “Real Gordão” está ligada a ataques gordofóbicos que você sofreu. Você poderia compartilhar com a gente como foram esses ataques?

Pjay: Sempre fui uma pessoa gorda desde a infância e sempre sofri com gordofobia de milhares de formas diferentes.  Não só dentro da minha própria família, como  até diversas fontes de repressão externas. Se listasse tudo levaria dias.

Desde a minha infância sempre tive uma ideia de como queria me vestir.  A partir do momento que consegui escolher minhas próprias peças de roupa, comecei a me ver como uma pessoa estilosa que tinha lá a sua informação de moda, e isso foi evoluindo desde então.  Como sou uma pessoa de períodos, de tempos em tempos me arrisco a experimentar algo diferente no quesito vestimenta.

Recentemente, venho tentando um estilo misto, algo mais clássico com toques contemporâneos, e me apaixonei por calças de alfaiataria, coisa que achei impossível de conseguir por um bom tempo, se tratando de um homem gordo maior, algumas peças são inalcançáveis para nós. Mesmo assim, corri atrás e consegui uma calça sob medida feita para mim, da qual custou o meu esforço, meu tempo e principalmente o meu dinheiro, já que a roupa plus size tem um preço salgado, ainda mais feita sob medida. 

Na primeira vez que vesti a calça com a camiseta por dentro, minha silhueta ficou bem marcada, e consegui perceber os olhares que recebi a vida toda até mesmo dentro de casa.

Um dia saí com essa calça para ir tomar um sorvete; dois quarteirões depois, uma família inteira parou, e de dentro do carro começaram a me filmar enquanto eu estava de costas. Era literalmente uma menina me filmando e achando engraçado, com o pai dela no banco da frente, não só aprovando a atitude, mas também rindo com ela.

Me virei porque ouvi as risadas, os vi me filmando, e naquele momento entendi exatamente o que estava acontecendo. Comecei a andar em direção ao carro gritando de ódio, e eles simplesmente fecharam o vidro, passaram bem devagar na minha frente e foram embora. Tive um ataque de ansiedade logo após. Eu simplesmente não podia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Lutei tanto pelo meu estilo e pela minha expressão de moda para sair de casa e na esquina seguinte passar por isso?

Estava exausto como pessoa gorda. Exausto de ser desrespeitado. Exausto de existir, nesse aspecto de chacota. Parecia que em segundos  tinha voltado ao meu ensino médio, onde o bullying acabava comigo todos os dias. Queria simplesmente sumir. Acumulei ódio,  indignação e aquilo foi a gota d’água para mim, foi aí que surgiu “Real Gordão”.

Pop Plus: ️️Esse é seu primeiro som que trata sobre como você se sente sendo um homem gordo maior. Como você se sente compartilhando essa vivência com o mundo?

Pjay: Durante muito tempo me senti, e às vezes ainda me sinto, sozinho sendo homem gordo maior.  É como se a minha luta existisse apenas para mim, mesmo sabendo que não sou o único  passando por isso. Digo isso porque a desvalidação dessa luta é feita diariamente à nossa volta. Nosso mundo não foi construído para pessoas como nós, então, se para esse mundo não existimos, nossa luta também não existe.

Poder comunicar para pessoas como eu, que passam pelas mesmas coisas, que acumulam ódio e indignação como eu, que entendem essa dor, que já choraram pela mesma coisa, faz com que não me sinta tão sozinho no mundo, e espero que essas pessoas também possam se sentir menos sozinhas ouvindo “Real Gordão”.

Além disso, dizer para essas pessoas que o ódio delas é válido é importante, acredito que isso serve para excluir qualquer sentimento de culpa. Outra coisa que acontece com frequência com pessoas gordas, é que culpabilizam nossa dor, como se fossemos responsáveis por ela. Então, dizer que também sinto o mesmo ódio – já que somos constantemente postos como impostores – é muito importante. 

Pop Plus: ️ Abordar um tema tão sensível como a gordofobia de forma tão direta e profunda, pode abrir para que muitas pessoas passem a compartilhar suas próprias vivências. Isso tem acontecido?

Pjay: Sim, felizmente tem acontecido. Em especial, e que me marcou muito, foi a da Camila Lopes, amiga que participou da edição do clipe e da criação do design e estética de divulgação.

Camila me contou que, para ela, esse projeto foi muito importante, e que foi um prazer enorme, além de extremamente significativo  fazer parte disso. Ela, como pessoa magra e irmã de uma pessoa gorda, entende a necessidade de comunicar nossa existência e nosso devido respeito. Me disse que a irmã é alguém muito importante para ela, e que desde sempre tem feito de tudo para que tenha um lugar no mundo sendo uma pessoa gorda. E que deseja muito que um dia essa existência seja menos dolorosa, e que viu de perto as dificuldades imensas que esse mundo nos proporciona. Então, por sua irmã e por essa luta que a ajuda a travar, fazer parte de “Real Gordão” foi muito importante para ela.

Ouvir tudo isso dela em detalhes foi  acolhedor. Mas, acima de tudo, uma confirmação de que a música está cumprindo seu propósito. Foi exatamente pra isso que a compus.

Pop Plus: Como surgiu a proposta de parceria com Jupi77er?

Pjay: Eu acompanho Jupi77er e o Rap Plus Size há bastante tempo, por motivos óbvios. Eles são um pilar no front dessa luta há bastante tempo, e já realizaram muita coisa pra nós, muita mesmo. Então acompanhar eles pra mim sempre foi um prazer, principalmente quando comecei a me entender melhor como pessoa gorda.

Depois da música já ter sido gravada, por ironia do destino Jupi77er decidiu entrar no meu perfil, e me disse que queria muito que um feat [parceria] acontecesse, por conta da identificação como pessoa gorda. Para mim foi simplesmente incrível, e desde então a gente desenrolou algo maravilhoso que culminou em Real Gordão” do jeito que é hoje.

Nada melhor do que ter um nome que já está nessa luta há muito tempo para abrir as portas para mais um grito de resistência. Ter Jupi77er dentro do projeto foi uma honra maravilhosa. 


Pop Plus:  Para além da música, você lançou um clipe. Comenta para a gente como foi o processo de gravação.

Pjay: Como pessoa gorda, sempre tive dificuldade de me expor, tanto que a maioria dos meus trabalhos anteriores foram feitos com lyric videos [conteúdo audiovisual onde aparece a letra simultaneamente da música que toca ao fundo], e também por uma questão do custo. Esse foi o primeiro clipe no qual tive possibilidade de investir em um audiovisual de qualidade.

Sou apaixonado por cinema. Além das referências de máfia no clipe – paixão minha -, ver de pertinho a equipe ajustando luz, ângulo, cenário, foi muito recompensador.  Particularmente achei incrível ver como as coisas acontecem nos bastidores quando se trata da criação de um filme.  Ver a mágica acontecer atrás das câmeras foi algo que sempre quis.

A equipe designada pela produtora Umbucajá, acima de tudo, foi muito respeitosa. Diferente do que temia, me senti extremamente confortável e à vontade para gravar os takes. Quero muito repetir a dose quando possível. 

Pop Plus: O que o público pode esperar do Pjay para o segundo semestre?

Pjay: Tenho planos de lançar um EP novo, do qual “Real Gordão” faz parte, se chama SUPERNOVA. Como sempre gosto de fazer, estou trabalhando bastante em uma temática e estética interessante, sempre levando em conta as referências de tudo aquilo que amo. Assim como o nome do EP diz, SUPERNOVA marca minha nova fase e espero que as pessoas gostem do que tenho pra mostrar e para dizer.

Assista Real Gordão”:

 

Tendências da Semana de Moda de Milão 10 tendências diretamente das semanas de moda de Nova York e Londres Pop Plus #35: 15 looks de quem foi ao evento de moda plus size As peças queridinhas do público no Pop Plus #35 Casual plus size para curtir a primavera! Raio-X do estilo de Gabi Berri Calças plus size para todos os estilos e ocasiões Roupas esportivas para corpos gordos e curvilíneos Copenhagen Fashion Week: veja 6 tendências para 2024 Como usar: tênis casual em looks plus size