Jessica Balbino

Diário de Quarentena: Jéssica Balbino – escritora, produtora e jornalista

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Toda semana vamos publicar textos de influenciadoras convidadas que contarão como estão passando o período de quarentena.

por Jéssica Balbino (*)

O dia era 13 de Março. Eu estava em viagem a trabalho em São José do Rio Preto e recebi uma mensagem cancelando um evento que eu teria no fim de semana seguinte em São Paulo por causa do novo coronavírus (Covid-19). Estranhei, afinal, até ali, com exceção de algumas pessoas usando máscaras de proteção no aeroporto três dias antes, eu não havia ouvido falar nada sobre o contágio pelo vírus no Brasil.

As cenas de Wuhan, na China, exibidas no Fantástico, pouco mais de um mês antes eram ainda um signo distante do que eu não imaginava que atravessaríamos. Mas, no outro dia, de novo no aeroporto, o procedimento de segurança havia mudado. Gringos, do meu lado, de máscara, gravavam, em espanhol, vídeos sobre a América Latina e o medo do coronavírus. O voo atrasou, me fazendo desmarcar o atendimento com meu psicanalista. O motivo foi um treinamento da tripulação sobre o novo coronavírus.

As orientações de segurança foram outras também. Enquanto esperava, pelo Twitter, vi a notícia de que o presidente havia testado positivo, após o retorno de Nova York. Quando aterrissei, vi que tinha testado negativo. De novo o jogo das fake news, manipulação da imprensa e da população, sobretudo.

No final de semana, tive aulas normais no curso de Psicanálise, saí de lá e fui comer. Na Segunda-feira, o mundo era outro. O comércio já não podia mais funcionar, meus outros eventos todos do mês de Março e Abril haviam sido cancelados. O principal festival literário da cidade, onde eu lançaria meu livro, havia sido cancelado. E a única coisa que mantive foi minha ida ao psicanalista. Fiz na Segunda-feira a sessão que havia sido adiada.

Jessica Balbino
Jessica Balbino

Cinco dias depois, a sessão normal, uma crise de ansiedade neste caminho e a sensação de que minha vida havia sido interrompida. De repente, nesse curto espaço de tempo, passei a ter medo de ir na rua colocar o lixo, de levar meu cachorro para passear como tenho feito nos últimos 10 anos e quase enlouqueci quando meu pai, com 80 anos, foi no culto. Hoje, passado o período de possível incubação do vírus, agradeço. Foi o último antes da suspensão. Agora, só o YouTube salva.

“E aí, de repente, não mais do que em três dias, todas minhas causas pareceram pequenas perto da necessidade de me manter sã”

E, neste meio do caminho, a sensação aflitiva de: como vão ser as coisas? como vou sobreviver? como vou cuidar dos meus pais e das pessoas que amo? E aí, de repente, não mais do que em três dias, todas minhas causas pareceram pequenas perto da necessidade de me manter sã. De ver quem eu amo bem. De saber que as pessoas estão saudáveis.

Para onde tinha ido minha militância antigordofobia? Por que eu não conseguia mais pensar sobre isso? Por que eu não conseguia sentar e terminar meu livro? Por que eu não conseguia me concentrar nas leituras? Nas séries? Em nada?

A sensação de total falta de controle me fez olhar as coisas sob perspectiva: qual o valor e a relevância do que eu tenho feito até aqui?

E, na semana seguinte, me voluntariei para trabalhar como repórter no combate às fake news. Foi o meu jeito de ajudar outras pessoas, de criar uma rede com fatos checados e apurados e informar quem eu conheço na minha cidade.

Jessica Balbino
Jessica em ação

Mais uma semana e ao mesmo tempo que tudo parecia muito novo – como a cena distópica de um carro de polícia passando, durante a noite, por uma rua vazia e dizendo, pelo sistema de som, para a população ficar em casa e confiar na Polícia Militar (peraí, já é demais, né) – os memes sobre engordar na quarenta e se tornar ‘uma baleia, uma porca, roliça, etc’ começaram a circular, me trazendo de volta a militância e às causas que estavam me norteando até então, uma vez que me fez concluir que as pessoas preferem morrer do que serem gordas e sofrerem o que nos fazem sofrer.

Entre o ápice do desespero ao ouvir o Átila Iamarino dizendo que o mundo só voltará a ser como o conhecíamos em dois anos e a vontade de desacelerar, acabo trabalhando mais – e comecei a pensar sobre como posso viver nesse período.

Sem direito ao auxílio emergencial do governo, com todos trabalhos cancelados e/ou suspensos, me coloquei a pensar no que poderia fazer e a saída foi criar um financiamento coletivo. A ideia é conseguir produzindo o que sempre produzi – blog sobre literatura marginal/periférica, podcast sobre literatura, newsletter, cursos online, finalização do livro – e destinar 30% do valor arrecadado para outras pessoas que estão na mesma situação – artistas e comunicadores que ficaram sem trabalho na pandemia.

E, talvez aqui, tenha sido o ponto de virada. Mais do que o dia que consegui fazer esfihas árabes sozinha. Mais do que o dia em que instalei uma rede no quintal – reconhecendo aqui meu privilégio de ter um quintal na quarentena. Mais do que ter passado os 14 dias iniciais da pandemia com medo de estar contaminada. Mais do que a primeira ida ao supermercado. Mais do que a primeira live que fiz nesse período de quarentena. Mais do que o dia 21 de abril, em que celebrei o aniversário de 72 anos da minha mãe sem poder abraçá-la, tamanho é meu medo de contaminar as pessoas que eu amo.

Aqui, pensando no quanto mudamos como pessoas. Pensando no futuro que, como bem cantou Renato Russo, não é mais como era antigamente, concluo que chegamos no tempo em que estender a mão ao próximo vai ser nosso maior ato. Em que entender que podemos viver com menos é essencial. Que meus ‘white people problems’ com horário de voo, viagens a trabalho e horário de psicanálise ficaram em segundo plano.

“Chegamos no tempo em que estender a mão ao próximo vai ser nosso maior ato”

Agora, eu me preocupo com minha vizinha que se recusa a usar máscara para ir ao supermercado. Com meus vizinhos, ainda crianças, que ficam trancados, os cinco, dentro de casa e não podem viver, gastar energia, criar memórias. Me preocupo, inclusive, com meu estoque de memórias. Serão suficientes? Esses tempos de pandemia são tempo sem contato. Só pela tela, dá pra criar memória? Sem cheiro? Sem clima? Sem ambiente? Sem o conjunto de coisas que formam uma experiência de fato, como eu aprendi?

Jessica Balbino
Jéssica em ação

São inúmeros “e se…”, muito mais trabalho, pouca remuneração, o retorno da militância para esfregar na cara dos gordofóbicos que não, não tem problema terminarem a quarentena gordos, mas tem problema os estoques de sangue nos hemocentros estarem baixo. Que se foda o quanto você vai pesar ou quantas caixas de bombom vai comer numa única tarde por tédio, as pessoas estão morrendo e não há, sequer, lugar para enterrá-las. Não temos corpos, nomes, rostos. Temos pessoas que desaparecem, como na Ditadura, e famílias que não suportam seus lutos e viram estatísticas cada dia mais sombrias.

Temos um presidente que incita não só o ódio, mas o desprezo pela vida e zomba da saúde pública ao espirrar na mão e entregá-la a uma idosa, que debocha do mundo ao convocar uma manifestação pró AI-5 e evocar o período mais sombrio da Ditadura sem medo do que quer que seja. E a gente assiste, inabalável, sem sequer a promessa de parar o país, que finge estar parado, mas lota a Marginal Tietê de carros, reabre shoppings e sobrepõe a Economia pela vida o tempo inteiro, invertendo valores.

Tudo isso me preocupa, me deixa exausta, mas, a possibilidade de me doar, de me jogar no que acredito, de poder dividir o que sei e tenho é o que me ajuda a atravessar os dias, que começam a ficar frios – eu não gosto – e ter que achar formas de aquecer não só o corpo, mas o coração neste período tão difícil.

De casa, peço, escrevo, gravo vídeos e imploro para que todos fiquem em casa. Para que ajudem uns aos outros. Que se ofereçam para buscar comida para os vizinhos idosos. Que liguem para suas famílias. Que nessa quarentena façam companhia a quem vive só – ainda que virtualmente, que se você tem R$ 10, é possível doar R$ 3 a alguém e ainda viver com R$ 7. E, peço incansavelmente, que celebrem a vida, que doem, mais do que dinheiro e cesta básica, amor. Que se olhem, ainda que pelas telas, nos olhos.

Nós podemos sobreviver à quarentena. Nós podemos vencer um inimigo invisível, mas precisamos de amor. E um dia de cada vez é possível, mesmo assim, viver e acreditar que o futuro logo menos chegará. E que será bom.

(*) Jéssica Balbino é o tipo de mulher elétrica, que mistura Jornalismo, produção cultural e literatura com pimenta, cafeína, fósforo e gasolina.

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